sexta-feira, 29 de dezembro de 2017




Quando eu era pequenina sonhava com palhaços

Com: Tiago Bôto e Wagner Borges
Realização: São José Correia

{apontamento 15.}

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

À espera do silêncio para começar. Ainda existe um barulho lá ao fundo, não é ruidoso, mas é suficiente para marcar presença. À espera para começar. O que é que aconteceu primeiro? À espera de expelir todo o fumo do cigarro para começar. Primeiro aconteceu algo. Mas começar só depois do silêncio. Primeiro o silêncio. Primeiro tem que começar o silêncio, e depois começar. Instala-se agora a presença que fazia o ruído ao longe. Está aqui. O silêncio longe. A figura parada, de costas, virada para a parede branca com alguns quadros pendurados, instala-se depois de ouvir o som do telemóvel, vê o telemóvel, vê a mensagem, de costas, virada para a parede, diz uma única palavra, a palavra que diz é um objecto, um objecto gigante que nos permite viajar, não diz mais nada, avança para dentro, continua o ruído, acende a máquina de café, deita a borra usada para o lixo, enche novamente, tira um novo café, não diz nada, faz tudo em silêncio, apenas com um ruído lá ao fundo, mas suficientemente presente para ser, para penetrar outra existência. Existe apenas, entre estas duas existências, o ruído provocado pelas ondas vibratórias quando chocam contra a matéria. O som de passos dá entender que a figura que à pouco estava parada em frente à parede branca se desloca para um outro sítio mais longe, mas não longe o suficiente para que o ruído provocado pelas suas ondas vibratórias não deixe ainda assim de penetrar esta outra existência. 
Subitamente a porta que dá acesso à rua abriu e voltou-se a fechar, no que pareceu ser um movimento contínuo.
Começar. 

{apontamento 14.}      

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O corpo sentado não se consegue abstrair do pensamento. 
Se o olhar começa, o corpo terá que o seguir. Para seguir, o pensamento terá que ficar na cadeira da dor nas costas? O pensamento terá que seguir o corpo, que segue logo a seguir ao olhar que começa o pensamento. O pensamento já começou antes do olhar do corpo, no frio da cadeira das costas curvadas da dor. Começou antes. Antes do olhar que começa o corpo, antes do corpo que avança com o olhar. O corpo move o olhar no pensamento antes da dor nas costas curvadas da cadeira fria, de um início de dia frio. O chá preenche o tempo da acção do começo do olhar que o corpo move. O corpo move o pensamento para além do olhar. O olhar move-se, o chá acaba por arrefecer, o corpo levanta-se. 

{apontamento 13.}

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Manhã fria. 
O corpo sentado numa cadeira, as costas curvadas. Uma dor. 
A água para o chá começou a ferver. 
Chá quente na cadeira fria. Chá quente na dor das costas curvadas numa manhã fria. 
Um cigarro.
O olhar começa o dia. 

{apontamento 12.}

domingo, 8 de outubro de 2017

TOYBOAT 2.0 Teaser



Há um sonho partilhado por dois homens, dois anti-heróis, que procuram esquecer a memória. Há uma preocupação puritana.
E uma mulher. E o medo. A fuga ou a vontade de ficar.
Sabe-se que mesmo antes da queda, já se encontrou rendição.
Um jogo difícil. Ninguém possui regras.
Só consequências.
Eles recriam um universo próprio, um ambiente de mistério, uma armadilha onde nada é e tudo existe.
Melhor reinar no Inferno do que obedecer no Céu.

O espetáculo TOYBOAT surge, numa primeira versão, inserido na sequência do concurso QUATRO QUATROS – Mostra de Teatro de Curta Duração, em 2015, promovido pela Escola de Mulheres em parceria com a Delfos – Núcleo de Intervenção Cultural.
Em 2016, foi criada a versão 2.0., no Festival VAGA, promovido pela ACE e Teatro do Bolhão.

Criação e Interpretação
Tiago Bôto e Wagner Borges
Dramaturgia
Tiago Bôto e Wagner Borges, a partir de textos de vários autores
Participação em Vídeo
Filipa Leão
Fotografia de Cena
Ana Lopes Gomes
Apoio Técnico
Nuno Samora
Operação de Video, Som e Luz
Rodrigo Bôto
Participação na Instalação «I´m wainting for a boat»
Ana Palma | António Júlio | Bárbara Barradas | Bruno Huca
Bruno Schiappa | Carla Leal | Cláudia Galhós| Cucha Carvalheiro Elmano Sancho | Élvio Camacho | Érica Rodrigues | Fábio Vaz Fernando Pinto Amaral Filipa Leão | Francesco Mangiacasale
Isac Graça | Ivan Colarić | João de Brito | Josefa Doropio
Larisa Tovmasyan | Leonor Cabral | Mafalda Sampaio
Maria de Lurdes Doropio| Maria Inês Marques | Maria João Vicente
Maria Lolita Sousa | Nuno Margarido Lopes | Nuno Nolasco
Nuno Pinheiro | Paula Pinto | Raquel Viegas
Ricardo Campos Guerreiro | Rosana Lugojan | Rui Neto
Sara Carinhas | Susana Gomes | Vanda Cerejo

Agradecimentos
São José Correia, Josefa Lopes Dorropio, Reinaldo Bôto, António Júlio, Maria De Lurdes Dorropio, Teresa Borges, Ruy Malheiro e Mafalda Abreu.

Produção
Tiago Bôto | Wagner Borges
Apoio e Acolhimento
Teatro da Garagem

RESERVAS:
Telefone: +351 21 885 41 90
Telemóvel: +351 96 801 52 51
geral@teatrodagaragem.com

TOYBOAT 2.0 de Tiago Bôto e Wagner Borges


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Na mesma parede. 
Três cigarros.
Existe aqui uma repetição. 
A rotina impera, os pensamentos não fluem. 
Na mesma parede, na mesma repetição dessa parede ele sente que termina um ciclo numa linha temporal, da sua realidade, que foi de 1 a 6. Os olhos fixaram um qualquer ponto da suposta terceira dimensão. Ele viveu esta linha temporal no modo de quem vive para pagar contas, o prazer foi-se esgotando, desmembrou-se e não se estava a saber posicionar, e o prazer secava mais a cada dia.
Não há prazer não há nada!
Observou e tentou posicionar-se. Baralhou-se por sentir tanta clareza. Tentou matar a consciência mas sentia-se cada vez mais sóbrio.
Não há prazer não há nada!
Amanhã será o sétimo ou iniciará o um?

{Apontamento 10.}

terça-feira, 25 de abril de 2017

À frente dele o mar.
Sempre o mar.
Olha-o.
Ouve, entre arrepios, o embate das ondas nas rochas.
Existe um som que não se extingue no mar. E tudo se silencia.
Fecha os olhos e imagina-se no estado líquido, nessa mistura ondulante que navega na corrente de uma outra força.

{Apontamento 9.}

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ele estava novamente a fumar um cigarro encostado à parede de onde via a árvore que gritou e a mesma que fez com que aquela mulher durante dois dias seguidos lhe pedisse um cigarro. 
Estava a fumar. Prestes a entrar no tempo limite do seu horário, do seu compromisso. Enquanto fumava ia olhando para as inúmeras pessoas que passavam. Fixou o olhar num casal. Ela tinha uma garrafa de água de plástico vazia nas mãos, percebia-se que estava incomodada com aquele objecto, não sabia muito bem como o segurar, aquilo incomodava-a. Ele, um homem, que ia ao lado dela, arrancou-lhe a garrafa das mãos, ela ficou tensa, ele riu-se e dirigiu-se ao pequeno canteiro da árvore gritante e com o riso alargado deitou a garrafa para o mesmo. 
Ele continuava encostado à parede,ficou a olhar para a árvore e num gesto com uma intensão não moralista, pois foi assim que sentiu avançar o seu corpo até à árvore, agarrou na garrafa e deitou-a para o lixo. 
Entrou para enfrentrar a massa de gente que o esperava no local do seu compromisso. 
O limite do horário chegara ao fim.  

{Apontamento 8.}


sábado, 15 de abril de 2017

Correu para chegar a tempo ao sítio onde tinha um horário marcado, um compromisso, uma função que necessitava da sua presença, não por ser ele específicamente, apenas por agora ter sido ele a assumir esse compromisso.
Virou a esquina para subir a rua íngreme.
Parou. 
Olhou até onde o seu olhar conseguia ver. Um mar de gente. Uma massa que lhe parecia compacta, impossível de trespassar. Respirou fundo. Avançou devagar, aos poucos os espaços que poderia ocupar com o seu corpo foram surgindo. Avançava. Ia-se tornando também parte daquela massa. Quase a chegar ao topo um homem falou mais alto do que toda a gente. Ele olhou e continuou a andar. O homem continuava a falar, aquilo que dizia ainda não lhe era muito perceptível, olhou outra vez, e desta vez algo naquele corpo o fez parar. Não conseguia deixar de ver e ouvir:
"porque só há uma coisa entre nós e o outro, entre A e B. E não é uma coisa estanque, manifesta-se por entre as zonas que não se vêm, mas que se sentem no nosso interior..."
O homem segurava uma bíblia nas mãos. A massa continuava a movimentar-se com uma fluidez ondulante. E ele deixou-se ficar parado a sentir-se imperceptível durante mais um bocado.
Passado um bocado teve que avançar, já estava atrasado.  
Correu. 

{Apontamento 7.}    

domingo, 9 de abril de 2017

Ela está sentada num dos bancos do metro. 
Cabisbaixa. 
A mão segura a cabeça. 
Esta postura revela, para ele que vê, a necessidade de apoio ao cansaço, ao cansaço extremo. 
Ela veste uma camisola de um rosa pálido que tem escrito a letras pretas sobre o peito:
"CREATE YOUR OWN DREAMS". 

{Apontamento 6.}

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Surgiu-lhe uma frase feita como as dos pacotes de açúcar. 
Primeiro rejeitou-a, depois voltou a pensar nela, decidiu escrevê-la:
Talvez o verdadeiro acto de rebelia resida ainda naqueles que conseguem amar. Que amam e se partem aos pedaços, mas voltam a amar, mesmo que depois se desfaçam novamente, voltam a amar. A rebelia é o verdadeiro acto de amar. Eu rebelo-me porque amo. O cínico secou a fonte, o romântico afogou-se e frustrou-se na espera da materialização das suas fantasias à sua própria imagem. 
Parou de escrever. por vezes tem receio de escrever certas coisas. Receio, não medo. Porque o mundo é tão instável.
Hoje foi isto que viu. 

{Apontamento 5.}

domingo, 2 de abril de 2017

Ele saiu de casa. 
Desceu a rua. O tempo mudara de um dia para o outro. Tinha demasiada roupa, mas iria precisar dela para a noite. Desceu a rua a pensar que iria entrar no metro, pelo menos esse era o seu plano. Saiu de casa com tempo, não estava a correr, mas tinha uma hora marcada para estar num sítio, um compromisso, uma rotina, um horário de trabalho. Tinha que descer aquela rua naquele momento.
Decidiu ir a pé. Arriscou um pequeno corte no hábito. Teria tempo para chegar a horas. Sim, teria.
Na mesma parede fumou um cigarro, mas desta vez a senhora de voz rouca, mas delicada, não apareceu, pensou nela por micro-segundos. Olhou em frente, já era de noite, a roupa a mais estava agora certa, proporcionava-lhe a temperatura ideal, ainda bem que, de alguma forma, sempre soube ser paciente, as coisas talvez acabem por fazer sentido, em algum momento, em algum dia. 
Olhou em frente. O passeio que há uns dias atrás tinha sido retirado, estava agora de novo reconstruido e no meio do cimento uma árvore plantada. 
Olhou em frente, mas agora para a árvore.
Ouviu o seu grito.
Olhou para o outro lado e deparou-se com o olhar de uma pessoa de café e cigarro na mão que andava nervosamente de um lado para o outro até que se encostou na parede, longe dele, com o olhar de esguelha. 
Tal como à árvore, ouviu o seu grito.
Apagou o cigarro e entrou para dentro do edifício, olhou uma vez mais para trás e o olhar de esguelha mantinha-se fixo no som ensurdecedor do grito daquele corpo. 

{Apontamento 4.}  

 

sábado, 1 de abril de 2017

No metro distanciou-se de si e olhou para as pessoas. Para os olhos, a inclinação da cabeça, mãos. 
Os olhos mostravam uma tristeza profunda, cansaço, ansiedade. As unhas das mãos eram roídas enquanto a respiração ganhava um ritmo ofegante. 
Fim de viagem. 
Saiu para o mundo, para a poeira. 
Arrumou meticulosamente quarenta tubos de sal durante a passagem da música My way, com uma versão remix.
Apeteceu-lhe chorar.
Chorou.
Ninguém viu, mas por dentro afogou-se.

{Apontamento 3.} 

sexta-feira, 31 de março de 2017

Ele sorriu no segundo dia.
O segundo dia que era este.
Porque no segundo dia, aproximadamente à mesma hora, no mesmo local, a mesma senhora fez os mesmos movimentos de olhar para o chão à procura de alguma beata ainda meio acesa, e quando olhou para ele, encostado a uma parede, a fumar um cigarro, pediu-lhe com uma voz rouca, usada, mas muito delicadamente, se lhe poderia dar um cigarro.
Pela segunda vez ele deu. 

{Apontamento 2.}
He just had a boring day. 
No sorry we don´t sell stamps.

{Apontamento 1.}

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

05/01/2017

São 1:53. Escrevo. Escrevo sem um objectivo concreto, confesso. Nos meus ouvidos ecoa a voz da Pj Harvey. Um amor maior. Não sei explicar, nem quero, mas existe aqui um entendimento qualquer. Hoje depois do ensaio, decidi ir a pé para casa, a menos de meio do caminho, no Martim Moniz, o meu passo rápido foi interrompido pelo som de uma voz, que pareceu chamar-me. Parei, olhei à volta e vi um senhor meio perdido, que a sorrir continuava a chamar, mas sem perceber se alguém teria parado. Aproximei-me dele. Perguntou-me onde estava a rampa, percebi que era cego, olhei à volta à procura de alguma rampa por perto, quando a encontrei perguntei-lhe se queria ajuda para subir, disse-me que sim. Ajudei-o. Quando me ia embora, travou-me o passo novamente e conversou comigo, para além de me agradecer. Apercebeu-se da minha ansiedade em ir embora e pediu desculpa porque sabia que eu estava acompanhado, eu disse-lhe que não estava com ninguém apenas tinha alguém ao telefone à espera, disse-me que sabia que eu estava acompanhado e que essa companhia não teria que ser física e que o soube pelo meu tom de voz. Ofereceu-me um copo, que eu não aceitei, e falamos mais um bocado sobre a guerra, sobre os nomes, sobre ter sido paraquedista na guerra e de como na guerra os paraquedistas são mortos antes de chegar ao chão, e que essa é uma regra que se viola, pois deveriam deixá-los chegar pelo menos ao chão, mas como ele me disse, na guerra existem regras, e todas elas são violadas, como em todo o lado. Aconselhou-me a nunca deixar que violem as minhas, que ele, sempre que lhe faziam isso controlava-se para não puxar da pistola. E por isso, disse-me ele, puxa da pistola. Nunca deixes de te chamar Tiago. Ri-me nervosamente, apesar de fascinado e segui o meu caminho.
2017:
Donald Trup é presidente dos Estados Unidos.
No Médio Oriente assistimos a um massacre.
A Rússia avança a todo gás para engolir a Europa.
A Europa encolhe-se cada vez mais mas não perde a arrogância.
Em Portugal a educação está morta. 
São agora 02:36 a Pj continua e eu continuo sem saber porque é que escrevo este texto, não tem que haver uma razão, ou ela existirá mesmo que eu não a veja neste preciso momento. Não tem princípio, nem meio nem fim. Terá algum texto um fim? 2017 e eu estou neste momento a ler o Plexus do Henry Miller, terá esse texto um fim ou um começo? Este não tem, nem uma coisa nem outra. São 2:39 agora e apetece-me beber um café, mas não posso, o café excita-me demasiado, ficaria acordado a noite toda. "Lick my legs I'm on fire Lick my legs of desire", diz a Pj.