domingo, 2 de abril de 2017

Ele saiu de casa. 
Desceu a rua. O tempo mudara de um dia para o outro. Tinha demasiada roupa, mas iria precisar dela para a noite. Desceu a rua a pensar que iria entrar no metro, pelo menos esse era o seu plano. Saiu de casa com tempo, não estava a correr, mas tinha uma hora marcada para estar num sítio, um compromisso, uma rotina, um horário de trabalho. Tinha que descer aquela rua naquele momento.
Decidiu ir a pé. Arriscou um pequeno corte no hábito. Teria tempo para chegar a horas. Sim, teria.
Na mesma parede fumou um cigarro, mas desta vez a senhora de voz rouca, mas delicada, não apareceu, pensou nela por micro-segundos. Olhou em frente, já era de noite, a roupa a mais estava agora certa, proporcionava-lhe a temperatura ideal, ainda bem que, de alguma forma, sempre soube ser paciente, as coisas talvez acabem por fazer sentido, em algum momento, em algum dia. 
Olhou em frente. O passeio que há uns dias atrás tinha sido retirado, estava agora de novo reconstruido e no meio do cimento uma árvore plantada. 
Olhou em frente, mas agora para a árvore.
Ouviu o seu grito.
Olhou para o outro lado e deparou-se com o olhar de uma pessoa de café e cigarro na mão que andava nervosamente de um lado para o outro até que se encostou na parede, longe dele, com o olhar de esguelha. 
Tal como à árvore, ouviu o seu grito.
Apagou o cigarro e entrou para dentro do edifício, olhou uma vez mais para trás e o olhar de esguelha mantinha-se fixo no som ensurdecedor do grito daquele corpo. 

{Apontamento 4.}  

 

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