domingo, 11 de agosto de 2019

Agosto. 
Uma noite de um verão incerto, num mundo incerto, violento, cheio de pedras prontas a ser arremessadas. Ele está sozinho em casa. Ouve-se ao longe a voz da Nina Simone. Ele está embrenhado, aquela voz penetra no mais intimo nas suas ligações corporais. 
Deixa-se ir.
Passam-lhe pela cabeça imagens do passado, presente e de uma qualquer possibilidade de futuro. 
O corpo reage. A música aumenta de intensidade.
Abre a porta de casa, vai até ao quintal e inspira profundamente.
Acende um cigarro.
A lua impõe-se pelo meio de um céu rosado. 
A Nina canta.
O fumo do cigarro inunda o espaço à sua frente até desaparecer. 
Ele continua parado no meio do quintal. 
Subitamente sente uma leve gota de água que lhe toca no braço.
Começa a chover. 
Ele não se mexe.
Olha apenas em frente enquanto se deixa molhar pelas finas gotas de chuva de uma noite de Agosto de um verão incerto, num mundo incerto, violento, cheio de pedras prontas a ser arremessadas. 
Por momentos não sente qualquer dúvida de que era ali que tinha que estar naquele preciso momento.
As finas gotas de chuva deixam de cair.
Ele entra em casa. 
Ouve-se a voz da Nina. 

{apontamento 22.}     

domingo, 5 de maio de 2019







































{apontamento 21.}
Sozinha na mesa de uma esplanada de um café, ela olhava para um lado e para outro na expectativa de algo, de algum acontecimento. Enquanto olhava bebeu um café. Levantou-se, entrou no café e perdeu a mesa onde estava sentada. Regressou com um bolo, sentou-se numa outra mesa.Comeu o bolo com a fisicalidade da espera, da expectativa. Fixou o olhar em frente enquanto fumava um cigarro. Manteve-se à espera enquanto do outro lado da rua as crianças brincavam eufóricas no recreio da escola. 

{apontamento 20.}

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Meados de Abril. 
Um cigarro que acompanha o som da chuva. 
O sítio, o espaço ficou silencioso. 
Na viagem de comboio que ele fez a meio do dia reparou num casal. 
A intimidade nos olhares, a tentativa de controlar os impulsos dos corpos, a atracção, a ternura. Os lábios beijaram-se, um beijo demorado, um riso nervoso depois do beijo. Os olhares fixos um no outro. Os corpos a pulsar. Uma mão é acariciada suavemente pelos lábios. Os olhos novamente a penetrar por entre um sorriso de desejo. 
Um corpo que se levanta, pega na mala de viagem, beija novamente os lábios, para, olha, sorri e sai. 
Os outros olhos viraram-se para o exterior da janela de comboio até ao final da viagem.
Fim de caminho.
Ele pega nas suas coisas. 
Sai da carruagem.
Fuma um cigarro e caminha até apanhar um táxi.

{apontamento 19.}    

Este texto começa na falha. Deveria começar na falha. Talvez não devesse sequer começar. Mas já começou e irá arrastar-se até não ter mais p...