quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O corpo sentado não se consegue abstrair do pensamento. 
Se o olhar começa, o corpo terá que o seguir. Para seguir, o pensamento terá que ficar na cadeira da dor nas costas? O pensamento terá que seguir o corpo, que segue logo a seguir ao olhar que começa o pensamento. O pensamento já começou antes do olhar do corpo, no frio da cadeira das costas curvadas da dor. Começou antes. Antes do olhar que começa o corpo, antes do corpo que avança com o olhar. O corpo move o olhar no pensamento antes da dor nas costas curvadas da cadeira fria, de um início de dia frio. O chá preenche o tempo da acção do começo do olhar que o corpo move. O corpo move o pensamento para além do olhar. O olhar move-se, o chá acaba por arrefecer, o corpo levanta-se. 

{apontamento 13.}

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Manhã fria. 
O corpo sentado numa cadeira, as costas curvadas. Uma dor. 
A água para o chá começou a ferver. 
Chá quente na cadeira fria. Chá quente na dor das costas curvadas numa manhã fria. 
Um cigarro.
O olhar começa o dia. 

{apontamento 12.}

domingo, 8 de outubro de 2017

TOYBOAT 2.0 Teaser



Há um sonho partilhado por dois homens, dois anti-heróis, que procuram esquecer a memória. Há uma preocupação puritana.
E uma mulher. E o medo. A fuga ou a vontade de ficar.
Sabe-se que mesmo antes da queda, já se encontrou rendição.
Um jogo difícil. Ninguém possui regras.
Só consequências.
Eles recriam um universo próprio, um ambiente de mistério, uma armadilha onde nada é e tudo existe.
Melhor reinar no Inferno do que obedecer no Céu.

O espetáculo TOYBOAT surge, numa primeira versão, inserido na sequência do concurso QUATRO QUATROS – Mostra de Teatro de Curta Duração, em 2015, promovido pela Escola de Mulheres em parceria com a Delfos – Núcleo de Intervenção Cultural.
Em 2016, foi criada a versão 2.0., no Festival VAGA, promovido pela ACE e Teatro do Bolhão.

Criação e Interpretação
Tiago Bôto e Wagner Borges
Dramaturgia
Tiago Bôto e Wagner Borges, a partir de textos de vários autores
Participação em Vídeo
Filipa Leão
Fotografia de Cena
Ana Lopes Gomes
Apoio Técnico
Nuno Samora
Operação de Video, Som e Luz
Rodrigo Bôto
Participação na Instalação «I´m wainting for a boat»
Ana Palma | António Júlio | Bárbara Barradas | Bruno Huca
Bruno Schiappa | Carla Leal | Cláudia Galhós| Cucha Carvalheiro Elmano Sancho | Élvio Camacho | Érica Rodrigues | Fábio Vaz Fernando Pinto Amaral Filipa Leão | Francesco Mangiacasale
Isac Graça | Ivan Colarić | João de Brito | Josefa Doropio
Larisa Tovmasyan | Leonor Cabral | Mafalda Sampaio
Maria de Lurdes Doropio| Maria Inês Marques | Maria João Vicente
Maria Lolita Sousa | Nuno Margarido Lopes | Nuno Nolasco
Nuno Pinheiro | Paula Pinto | Raquel Viegas
Ricardo Campos Guerreiro | Rosana Lugojan | Rui Neto
Sara Carinhas | Susana Gomes | Vanda Cerejo

Agradecimentos
São José Correia, Josefa Lopes Dorropio, Reinaldo Bôto, António Júlio, Maria De Lurdes Dorropio, Teresa Borges, Ruy Malheiro e Mafalda Abreu.

Produção
Tiago Bôto | Wagner Borges
Apoio e Acolhimento
Teatro da Garagem

RESERVAS:
Telefone: +351 21 885 41 90
Telemóvel: +351 96 801 52 51
geral@teatrodagaragem.com

TOYBOAT 2.0 de Tiago Bôto e Wagner Borges


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Na mesma parede. 
Três cigarros.
Existe aqui uma repetição. 
A rotina impera, os pensamentos não fluem. 
Na mesma parede, na mesma repetição dessa parede ele sente que termina um ciclo numa linha temporal, da sua realidade, que foi de 1 a 6. Os olhos fixaram um qualquer ponto da suposta terceira dimensão. Ele viveu esta linha temporal no modo de quem vive para pagar contas, o prazer foi-se esgotando, desmembrou-se e não se estava a saber posicionar, e o prazer secava mais a cada dia.
Não há prazer não há nada!
Observou e tentou posicionar-se. Baralhou-se por sentir tanta clareza. Tentou matar a consciência mas sentia-se cada vez mais sóbrio.
Não há prazer não há nada!
Amanhã será o sétimo ou iniciará o um?

{Apontamento 10.}

terça-feira, 25 de abril de 2017

À frente dele o mar.
Sempre o mar.
Olha-o.
Ouve, entre arrepios, o embate das ondas nas rochas.
Existe um som que não se extingue no mar. E tudo se silencia.
Fecha os olhos e imagina-se no estado líquido, nessa mistura ondulante que navega na corrente de uma outra força.

{Apontamento 9.}

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Ele estava novamente a fumar um cigarro encostado à parede de onde via a árvore que gritou e a mesma que fez com que aquela mulher durante dois dias seguidos lhe pedisse um cigarro. 
Estava a fumar. Prestes a entrar no tempo limite do seu horário, do seu compromisso. Enquanto fumava ia olhando para as inúmeras pessoas que passavam. Fixou o olhar num casal. Ela tinha uma garrafa de água de plástico vazia nas mãos, percebia-se que estava incomodada com aquele objecto, não sabia muito bem como o segurar, aquilo incomodava-a. Ele, um homem, que ia ao lado dela, arrancou-lhe a garrafa das mãos, ela ficou tensa, ele riu-se e dirigiu-se ao pequeno canteiro da árvore gritante e com o riso alargado deitou a garrafa para o mesmo. 
Ele continuava encostado à parede,ficou a olhar para a árvore e num gesto com uma intensão não moralista, pois foi assim que sentiu avançar o seu corpo até à árvore, agarrou na garrafa e deitou-a para o lixo. 
Entrou para enfrentrar a massa de gente que o esperava no local do seu compromisso. 
O limite do horário chegara ao fim.  

{Apontamento 8.}


sábado, 15 de abril de 2017

Correu para chegar a tempo ao sítio onde tinha um horário marcado, um compromisso, uma função que necessitava da sua presença, não por ser ele específicamente, apenas por agora ter sido ele a assumir esse compromisso.
Virou a esquina para subir a rua íngreme.
Parou. 
Olhou até onde o seu olhar conseguia ver. Um mar de gente. Uma massa que lhe parecia compacta, impossível de trespassar. Respirou fundo. Avançou devagar, aos poucos os espaços que poderia ocupar com o seu corpo foram surgindo. Avançava. Ia-se tornando também parte daquela massa. Quase a chegar ao topo um homem falou mais alto do que toda a gente. Ele olhou e continuou a andar. O homem continuava a falar, aquilo que dizia ainda não lhe era muito perceptível, olhou outra vez, e desta vez algo naquele corpo o fez parar. Não conseguia deixar de ver e ouvir:
"porque só há uma coisa entre nós e o outro, entre A e B. E não é uma coisa estanque, manifesta-se por entre as zonas que não se vêm, mas que se sentem no nosso interior..."
O homem segurava uma bíblia nas mãos. A massa continuava a movimentar-se com uma fluidez ondulante. E ele deixou-se ficar parado a sentir-se imperceptível durante mais um bocado.
Passado um bocado teve que avançar, já estava atrasado.  
Correu. 

{Apontamento 7.}    

domingo, 9 de abril de 2017

Ela está sentada num dos bancos do metro. 
Cabisbaixa. 
A mão segura a cabeça. 
Esta postura revela, para ele que vê, a necessidade de apoio ao cansaço, ao cansaço extremo. 
Ela veste uma camisola de um rosa pálido que tem escrito a letras pretas sobre o peito:
"CREATE YOUR OWN DREAMS". 

{Apontamento 6.}