sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O conhecimento divorciado da acção conduz à esterilidade

"Falar é apenas um pretexto para outras formas de comunicação mais subtis. Quando estas são inoperantes, a fala morre. Se duas pessoas estão empenhadas em comunicar uma com a outra, não tem importância absolutamente nenhuma que a conversa se torne desconcertante. As pessoas que insistem na clareza e na lógica raramente conseguem fazer-se compreender. Estão sempre à procura de um «transmissor» mais perfeito, iludidas pela suposição de que a mente é o único instrumento para a permuta de pensamentos. Quando uma pessoa começa realmente a falar, dá-se. Profere as palavras despreocupadamente, em vez de as contar como se fossem moedas, e não se importa com erros gramaticais ou factuais, contradições, mentiras, etc. Fala. Se falamos com alguém que sabe ouvir, esse alguém compreende-nos perfeitamente, mesmo que as palavras não façam sentido. Quando se consegue este género de conversa, há um casamento, quer estejamos a falar com um homem, quer com uma mulher. Os homens que falam com outros homens têm tanta necessidade deste género de casamento como as mulheres que falam com outras mulheres. Os casais casados raramente saboreiam tal tipo de conversa, por razões evidentes. 
Quanto a mim, conversar, conversar verdadeiramente, é uma das mais expressivas manifestações da fome do homem por um casamento ilimitado. As pessoas sensitivas, as pessoas que sentem, querem unir-se de um modo mais profundo, mais subtil e mais durável do que é permitido pelos costumes e pelas convenções. Quero dizer, de modo que ultrapassa os sonhos dos utopistas sociais e políticos. A fraternidade humana, se alguma vez se realizasse, seria apenas o estádio de jardim infantil do drama das relações humanas. Quando o homem começar a permitir-se expressão completa, quando puder exprimir-se sem medo do ridículo, do ostracismo ou da perseguição, a primeira coisa que fará será derramar o seu amor. Ainda estamos no primeiro capítulo da história do amor humano. E mesmo aí, mesmo no campo do puramente pessoal, a narrativa é muito inferior. Temos mais de meia dúzia de heróis e heroínas do amor para apresentar como exemplos? Duvido que tenhamos tantos grandes amorosos como temos santos ilustres. Temos abundância de sábios, e reis, e imperadores, e estadistas, e chefes militares, e artistas em profusão, e inventores, descobridores e exploradores... Mas onde estão os grandes amorosos? Depois de pensarmos um bocado, voltamos sempre a Abelardo e Heloísa, ou a António e Cleópatra, ou à história do Taj-Mahal. Mas uma grande parte disso é fictício, aumentado e glorificado pelos indigentes do amor cujas preces só encontram resposta no mito e na lenda. Tristão e Isolda - que forte encanto esta lenda ainda exerce sobre o mundo moderno! Sobressai, na paisagem romântica, como o pico coroado de neve do Fuji-Iama.
Havia uma observação que repetia constantemente a mim mesmo enquanto ouvia as intermináveis discussões entre Arthur Raymond e Kronski: relacionava-se com o facto de que o conhecimento divorciado da acção conduz à esterilidade."

Henry Miller - Sexus