quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Volto novamente
a querer alguma coisa.
Encontro-me
novamente
numa intimidade à qual pertencem os meus pensamentos
mais densos.

Porque aceito
que há coisas
que existem.

Existem numa
qualquer função
mesmo que inanimadas.

Observo

E observando
chamo presenças
que aleatoriamente 
se cruzam entre
mim
e o espectro abrangente
da minha observação.

Rapidamente e naturalmente
tudo se diluí,
perdendo os corpos
o magnetismo
que primeiro os juntou.

Aceita-se não saber
e aceita-se viver
a aceitar não saber.

Porque não se SABE nada.

Quais os factos mais concretos?

Eu não sei nada

E atinge-me a agonia de saber não poder
voltar ao grau zero.

O magnetismo da minha
observação abrangente
volta, sem ter essa intenção,
a reunir olhares que pareciam perdidos,
focados num outro campo de magnetismo
que já não era meu e
que da minha presença
parecia que tinham anulado a necessidade.

E então respiro fundo
e cerro o olhar
na vida que me rodeia
e tudo se comprime
e se fecha
num saber mais ou menos ilusório
de que já sabia.

Aborto a expansão
e em seu lugar
instala-se
o nervoso miudinho movimento
do meu corpo
que inicia golfadas de pensamentos
e acelera
provocando-me uma sensação
atroz;
avassaladora
de instabilidade,
onde tudo dá início a um acabar demasiado rápido.

E no acabar
vejo uma oportunidade
de me recompor
e de voltar a mim
iniciando-me numa nova 
expansão
que cruza
aleatoriamente
campos magnéticos
inesperados
e que pareciam já perdidos
mas que renascem
e me impulsionam
para um ritmo lento
que sugo até ao tutano
por ser tão longe de mim
tão desesperadamente longe de mim
que me obriga a SER quando
o alcanço

E SOU por momentos.

{apontamento 33.}

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

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{apontamento 32.}

terça-feira, 29 de junho de 2021

 /pausa/

uma linha de som que atravessa o espaço 

os lábios mexem-se 

os dedos das mãos tocam-se

a cinza cai em cima da mesa limpa

/pausa/

inspirar

expirar

este movimento já começou

não existe nada aqui, apenas a impossibilidade do nada poder ser nada

a linha de som curva-se, diminui, mantém-se suave 

////////// pausa //////////

o corpo volta a sentar-se

está ali parado, não estático

está ali

só ali

só está

só

{apontamento 31.}


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Volta sempre às mesmas músicas. Como se fossem vitais, a dado momento, para poder continuar. A música exerce um poder imenso em si. A janela está meio aberta para deixar sair o fumo do cigarro, para se conseguir respirar. As plantas estão regadas, os livros arrumados, as almofadas no sítio. Mas não aguenta mais o barulho, um barulho que penetra os seus dias como um raio fulminante e desvia a atenção do que sente ser essencial. Um barulho que constrange o pensamento, que tira o fôlego e enrouquece a voz. 

Levanta-se. Vai a janela. Respira o ar frio da rua. Olha para a rua vazia. Lá ao fundo o sinal de trânsito emite o som positivo de passagem para os peões. Volta a sentar-se, olha à volta. O chão limpo, o tapete varrido, sente o cheiro químico do detergente que limpou o chão.  Tira as meias, sente necessidade de sentir o chão. Sente frio mas deixa-se estar. Tenta decidir algo que não sabe o que é. O chão está limpo, as almofadas no sítio, os livros arrumados, a janela meio aberta para deixar sair o fumo do cigarro, é necessário respirar, o sinal lá fora emite o som positivo de passagem aos peões. O chão está frio, sente-o. Deixa-se estar.

As luzes estão apagadas.

Deixa-se estar.

{apontamento 28.}    

sábado, 19 de setembro de 2020

As flores estão espalhadas pela casa. Primeira respiração. O chá de perpétuas roxas está em cima da mesa. Segunda respiração. O vizinho do prédio ao lado grita. Terceira respiração. A vizinha de cima caminha com pés de aço. Quarta respiração. As sirenes lá fora. 

Pausa.

Pausa longa.

Ele olha. Suspende a respiração. Mergulha. Ganha tempo, espaço. Espaço para ser. Por agora sem mais palavras, apenas o tempo, o espaço e o silêncio.

{apontamento 27.} 

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Se não fosse as pernas doerem ele levantava-se.
Ao fim e ao cabo elas mexem-se, as pernas. 
Até quando? 

{apontamento 24.}

domingo, 11 de agosto de 2019

Agosto. 
Uma noite de um verão incerto, num mundo incerto, violento, cheio de pedras prontas a ser arremessadas. Ele está sozinho em casa. Ouve-se ao longe a voz da Nina Simone. Ele está embrenhado, aquela voz penetra no mais intimo nas suas ligações corporais. 
Deixa-se ir.
Passam-lhe pela cabeça imagens do passado, presente e de uma qualquer possibilidade de futuro. 
O corpo reage. A música aumenta de intensidade.
Abre a porta de casa, vai até ao quintal e inspira profundamente.
Acende um cigarro.
A lua impõe-se pelo meio de um céu rosado. 
A Nina canta.
O fumo do cigarro inunda o espaço à sua frente até desaparecer. 
Ele continua parado no meio do quintal. 
Subitamente sente uma leve gota de água que lhe toca no braço.
Começa a chover. 
Ele não se mexe.
Olha apenas em frente enquanto se deixa molhar pelas finas gotas de chuva de uma noite de Agosto de um verão incerto, num mundo incerto, violento, cheio de pedras prontas a ser arremessadas. 
Por momentos não sente qualquer dúvida de que era ali que tinha que estar naquele preciso momento.
As finas gotas de chuva deixam de cair.
Ele entra em casa. 
Ouve-se a voz da Nina. 

{apontamento 22.}     

domingo, 5 de maio de 2019







































{apontamento 21.}
Sozinha na mesa de uma esplanada de um café, ela olhava para um lado e para outro na expectativa de algo, de algum acontecimento. Enquanto olhava bebeu um café. Levantou-se, entrou no café e perdeu a mesa onde estava sentada. Regressou com um bolo, sentou-se numa outra mesa.Comeu o bolo com a fisicalidade da espera, da expectativa. Fixou o olhar em frente enquanto fumava um cigarro. Manteve-se à espera enquanto do outro lado da rua as crianças brincavam eufóricas no recreio da escola. 

{apontamento 20.}

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Meados de Abril. 
Um cigarro que acompanha o som da chuva. 
O sítio, o espaço ficou silencioso. 
Na viagem de comboio que ele fez a meio do dia reparou num casal. 
A intimidade nos olhares, a tentativa de controlar os impulsos dos corpos, a atracção, a ternura. Os lábios beijaram-se, um beijo demorado, um riso nervoso depois do beijo. Os olhares fixos um no outro. Os corpos a pulsar. Uma mão é acariciada suavemente pelos lábios. Os olhos novamente a penetrar por entre um sorriso de desejo. 
Um corpo que se levanta, pega na mala de viagem, beija novamente os lábios, para, olha, sorri e sai. 
Os outros olhos viraram-se para o exterior da janela de comboio até ao final da viagem.
Fim de caminho.
Ele pega nas suas coisas. 
Sai da carruagem.
Fuma um cigarro e caminha até apanhar um táxi.

{apontamento 19.}    

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Durante toda a viagem de metro esteve atento ao homem que vinha sentado à sua frente. De ar simpático, óculos, barba rala, cabelo escuro a começar a ficar branco e mãos delicadas, lia de forma frenética, disparando o olhar para vários lados e por vezes para ele, um olhar de estranheza, até que voltava para o seu livro, mas apenas por poucos segundos, até fazer o olhar navegar outra vez, parando sempre nele. Ao fundo o homem cego tocava uma batida nas suas latas para tentar algum dinheiro. Faltava um dia para a passagem de ano. 

{apontamento 17.}
Ext. Dia. 
Inverno. Frio. 
A calma com que caminha pela rua é interrompida pela queda de gotas de chuva. Chuva fria, ar frio. Acelera o passo. Não tem guarda-chuva, ainda faltam alguns metros para chegar ao metro. Os óculos vão ficando cada vez mais molhados, não tem tempo para parar e os limpar, tem que continuar. A chuva é cada vez mais forte. Não tem tempo para se abrigar e esperar, tem que continuar, deve continuar. Subitamente começa a tocar Wild is The Wind por Nina Simone no mp3.
Sem pensar em mais nada fica apenas ali parado, no meio da rua, a ouvir. 
A chuva cai. 
A imagem dele de costas.
Corta para.

{apontamento 16.}

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

À espera do silêncio para começar. Ainda existe um barulho lá ao fundo, não é ruidoso, mas é suficiente para marcar presença. À espera para começar. O que é que aconteceu primeiro? À espera de expelir todo o fumo do cigarro para começar. Primeiro aconteceu algo. Mas começar só depois do silêncio. Primeiro o silêncio. Primeiro tem que começar o silêncio, e depois começar. Instala-se agora a presença que fazia o ruído ao longe. Está aqui. O silêncio longe. A figura parada, de costas, virada para a parede branca com alguns quadros pendurados, instala-se depois de ouvir o som do telemóvel, vê o telemóvel, vê a mensagem, de costas, virada para a parede, diz uma única palavra, a palavra que diz é um objecto, um objecto gigante que nos permite viajar, não diz mais nada, avança para dentro, continua o ruído, acende a máquina de café, deita a borra usada para o lixo, enche novamente, tira um novo café, não diz nada, faz tudo em silêncio, apenas com um ruído lá ao fundo, mas suficientemente presente para ser, para penetrar outra existência. Existe apenas, entre estas duas existências, o ruído provocado pelas ondas vibratórias quando chocam contra a matéria. O som de passos dá entender que a figura que à pouco estava parada em frente à parede branca se desloca para um outro sítio mais longe, mas não longe o suficiente para que o ruído provocado pelas suas ondas vibratórias não deixe ainda assim de penetrar esta outra existência. 
Subitamente a porta que dá acesso à rua abriu e voltou-se a fechar, no que pareceu ser um movimento contínuo.
Começar. 

{apontamento 14.}      

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O corpo sentado não se consegue abstrair do pensamento. 
Se o olhar começa, o corpo terá que o seguir. Para seguir, o pensamento terá que ficar na cadeira da dor nas costas? O pensamento terá que seguir o corpo, que segue logo a seguir ao olhar que começa o pensamento. O pensamento já começou antes do olhar do corpo, no frio da cadeira das costas curvadas da dor. Começou antes. Antes do olhar que começa o corpo, antes do corpo que avança com o olhar. O corpo move o olhar no pensamento antes da dor nas costas curvadas da cadeira fria, de um início de dia frio. O chá preenche o tempo da acção do começo do olhar que o corpo move. O corpo move o pensamento para além do olhar. O olhar move-se, o chá acaba por arrefecer, o corpo levanta-se. 

{apontamento 13.}

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Manhã fria. 
O corpo sentado numa cadeira, as costas curvadas. Uma dor. 
A água para o chá começou a ferver. 
Chá quente na cadeira fria. Chá quente na dor das costas curvadas numa manhã fria. 
Um cigarro.
O olhar começa o dia. 

{apontamento 12.}

De todos os sons que alguma vez escutou, aquele foi o mais ensurdecedor. Mas o céu estava calmo, as árvores paradas, a terra parecia não mex...