domingo, 4 de agosto de 2013

Mas não me tome como um exemplo da maioria.

(...) "Constance ficou a meditar nestas palavras. 
- É verdade, mas nunca tem nada a ver com elas - respondeu.
- Eu? Mas o que estou a fazer neste momento? A falar com a maior das franquezas com uma mulher.
- Sim, falar...
- E que mais poderia eu fazer se você fosse um homem, senão falar consigo com sinceridade?
- Possivelmente mais nada. Mas uma mulher...
- A mulher quer que um homem goste dela e fale com ela, mas, ao mesmo tempo, que a ame e deseje, e parece-me que os dois aspectos se excluem mutuamente.
- Mas não devia ser assim. 
- É verdade que a água não devia ser tão húmida, é um exagero de húmidade. Mas é assim. Gosto das mulheres e falo com elas, mas na verdade não amo nem desejo. As duas coisas não coexistem para mim. 
- Acho que deviam coexistir.
- De acordo. Mas o facto de as coisas deverem ser uma coisa e serem outra é culpa minha.
Constance ficou pensativa.
- Isso não é verdade. Um homem pode amar uma mulher e falar com ela. Não compreendo o amor sem diálogo, sem amizade, sem intimidade. Não lhe parece?
- Bem, não sei, não posso generalizar. Só conheço o meu caso pessoal. Gosto das mulheres mas não as desejo. Gosto de falar com elas, e, embora depois se estabeleça uma intimidade, afasto-me sempre mais. No que respeita a beijarmo-nos, por exemplo. É assim. Mas não me tome como um exemplo da maioria. Provavelmente sou um caso específico, um daqueles homens que gostam de mulheres mas não as amam, e que até as odeiam se os obrigarem a meterem-se numa história de amor ou a simulá-la.
-E isso não o entristece?
- Porquê? De maneira nenhuma. Eu vejo por exemplo Charles May e outros homens que têm aventuras. Não, não os invejo nada. Se o destino me fizesse encontrar uma mulher que eu quisesse, óptimo, mas nunca conheci, nem vi nenhuma. Ora, creio que sou frígido, mas, apesar disso, há mulheres de quem eu gosto.
- Gosta de mim?
- Muito! E, como vê, não nos apete beijarmo-nos, não é verdade?
- Sem dúvida, mas não nos devia apetecer?" (...)

D.H Lawrence, O Amante De Lady Chaterley (1929)

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