segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O canivete Hamletiano

"É pequeno, mas qualquer um poderia estripar uma truta com ele, descascar uma pêra, cortar azedas, abrir uma carta, remover uma pedra da unha fendida de uma cabra - se a cabra estiver calma. O canivete, contudo, tem uma particularidade.
Quem poderá determinar o momento, ao longo da execução da obra, em que o pai tomou a sua decisão? Foi quando imaginou o canivete pela primeira vez? Ou terá sido lá mais para o fim, depois de já ter feito o cabo, e antes de ajustar a lâmina, que está segura por uma ´nica cavilha? 
A particularidade do canivete está no facto de o gume de corte da lâmina ser grosso e boleado. É um canivete feito essencialmente para não cortar. Tem uma lâmina anulada. No início do século XX, no ano de 1906, quando as revoluções e as cargas militares sobre as multidões estavam na ordem do dia por toda a Europa Central e de Leste, um homem fez um canivete como este para que a sua querida Eva não pudesse cortar um dedo.
Quando o abriste, Juan, ocorreu-te estares perante um objecto hamletiano. Carrega em si um tangível desejo e, correndo em paralelo, o medo que esse desejo evoca. Um canivete de indecisão. Aberta ou fechada, a lâmina marca sempre um arrependimento.
Contudo ficar-se-á por aqui? este objecto hamletiano, que sobreviveu ao seu século contra todas as probabilidades , fala-nos ainda de outra coisa: da vontade que o ser amado tenha tudo, mesmo tudo!"

John Berger - Aqui nos encontramos 

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