quarta-feira, 20 de abril de 2011

Gilles Deleuze

Primeira parte

"É muito difícil "explicarmo-nos" - uma entrevista, um diálogo, uma conversa. A maior parte das vezes, quando me é colocada uma questão, mesmo que seja pertinente, apercebo-me que não tenho rigorosamente nada a dizer. As questões fabricam-se, como qualquer outra coisa. Se não nos deixam fabricar as nossas questões, com elementos vindos de toda a parte, não importa de onde, se apenas no são "colocadas", não temos grande coisa a dizer. A arte de construir um problema é muito importante: inventa-se um problema, uma posição do problema, antes de se encontrar uma solução. Nada disto é feito numa entrevista, numa conversa, numa discussão. Até a reflexão, a sós, a dois, ou entre várias pessoas, não basta. Sobretudo para a reflexão. Com as objecções, ainda é pior. Cada vez que me fazem uma objecção, tenho vontade de dizer: "De acordo, de acordo, passemos a outra coisa." As objecções nunca foram fecundas. Passa-se a mesma coisa quando me é colocada uma questão geral. A finalidade não é dar respostas a questões, mas antes, sair delas. Muita gente pensa que é apenas repetindo as questões que se pode sair delas. "Que se passa com a filosofia? Está morta? Vai ser ultrapassada?" É muito penoso. Não paramos de regressar à questão para tentarmos sair dela. Mas nunca se pode sair desse modo. O movimento faz-se sempre nas costas do pensador, ou no momento em que ele pestaneja. Sair, é algo que já está feito, ou então que nunca faremos. As questões estão normalmente numa relação de tensão com um futuro (ou com um passado)." (...)

Gilles Deleuze Diálogos.

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