quinta-feira, 20 de maio de 2010

A máquina de fazer espanhóis

(...) "durante a noite, esses homens iam para ali com ar de cientistas secretos, dos quais ninguém sabia nada, e montavam uma tremenda máquina de transformar portugueses em espanhóis. e ele insistia em explicar-lhes que era português, que estava bem com o ser português e que não precisava de ajuda para fugir do país, deitar o país fora, ser outro. mas os homens não queriam saber da sua insistente vontade, tinham por ofício convencer os cidadãos a apreciar o modo de vida do país vizinho, chamando a atenção para a sua história deslumbrante e para o facto de nos ter dado nascimento e até lembrando os sessenta anos em que pareceu que o sonho de regressar a casa se consumava. " (...)

(...) "já não sou ninguém, rapaz, estou quase, dizia eu. não diga isso, senhor silva, ainda há-de se pôr fresco. está só abatido, é compreensível depois do que aconteceu. que doença tenho, américo, é o quê. não sei se é uma doença, é só cansaço, dá-lhe nervos. é como ter nervos. nervos tenho muitos. tem de se acalmar. sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de uns segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação. o américo respondeu-me, seria uma pena que não se voltasse a lembrar de mim, senhor silva, não gosto dessa teoria dos peixes, porque assim não se lembraria de mim."

Valter Hugo Mãe - "A Máquina De Fazer Espanhóis"

quarta-feira, 12 de maio de 2010

"A pior das loucuras é, sem dúvida, pretender ser sensato num mundo de doidos"
(Erasmo de Rotterdam)