sábado, 11 de setembro de 2010

A Sombra de Foucault

(...)"Costumava conversar com os espantalhos embrulhados em cachecóis, de calças enchumaçadas e bonés velhos. O meu avó apanhou-me um dia a dançar em torno de um espantalho e a instá-lo a dançar comigo. E gritou-me que, se eu me pusesse a imaginar coisas, acabaria como a minha avó, que tinha enlouquecido. A minha avó sussurrava e resmungava continuamente. Na verdade, eu não sou como ela. Sou como ele... Todos os escritores são loucos, de uma maneira ou de outra. Não propriamente grand fous, como Rimbaud, mas loucos, sim, loucos. Porque não acreditam na estabilidade da realidade. Sabem que pode ser estilhaçada, como uma vidraça ou o pára-brisas de um carro. Mas sabem também que a realidade pode ser inventada, reordenada, construída, refeita. A escrita é em si mesma uma acto de violência contra a realidade. Não te parece, petit? Fazêmo-lo, deixamo-lo ali escrito e desaparecemos, invisíveis... Sabes aquilo que me estão a fazer no hospício , petit? Estão a tentar responsabilizar-me pela minha própria loucura. É uma coisa muito grave. Que acusação... Tenho por vezes a ilusão de ser o último homem na terra... À minha frente só existe um deserto, provavelmente pejado de mortos... Conto histórias. Todos nós inventamos histórias. Eu conto-te histórias para te fazer rir. Adoro ouvir-te rir. Nunca escaparei desta prisão de histórias sem fim... Queres um crêpe supré petit com Grand Marnier e natas? Vá lá, desafio-te a provar um... Já leste aquilo que Foucault escreveu sobre o hospício? A loucura é teatro, é espectáculo. Nós, os Franceses, temos poucas palavras para designar a loucura. Em contrapartida, os Ingleses possuem uma galáxia de nomes para os dementes: louco, doido, tonto, simples, idiota, lunático, maníaco, insano. É importante desmontar todos esses significados. Olha para ti. Só um louco viria a Clermont em busca de um indivíduo internado há quase dez anos e com tão poucas esperanças de o encontrar. E sem sequer saber quem iria encontrar. - Observou-me atentamente. - A loucura e a paixão foram sempre permutáveis, através de toda a tradição literária ocidental. A loucura é a abundância da existência. É uma maneira de formular perguntas difíceis. Que quereria ele dizer, o impotente rei tirano? Oh, Bobo, vou enlouquecer! Talvez a loucura seja o excesso da possibilidade, petit. E a escrita é a redução da possibilidade a uma ideia, um livro, uma frase, uma palavra. A loucura é uma forma de auto-expressão. É o contrário da criatividade. Se fores louco, não serás capaz de produzir nada que possa ser separado de ti próprio. E, contudo, olha para Rimbaud e para o vosso maravilhoso Christopher Smart. Mas não acalentes ideias românticas sobre a loucura. A minha escrita era a minha protecção, a minha garantia contra a loucura. E, quando já não havia ninguém para me escutar, a minha escrita desvaneceu-se, juntamente com o meu leitor."(...)

Patricia Duncker

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