sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

ANA XXIX



"Outra vez na caleche, Ana sentiu-se mais infeliz que nunca: ... (...) "Olharam-me como a um ser bizarro, assustador, incompreensível!... Que irão aqueles a dizer?", pensou ao ver dois transeuntes conversando com animação. "Terão a pretensão de comunicar um ao outro o que sentem? Eu que queria confessar-me a Dolly! Fiz bem em calar-me; no fundo, a minha infelicidade tê-la-ia regozijado, embora ela nada tivesse deixado transparecer: acharia justo ver-me expiar os prazeres que me invejou. E Kitty teria ficado mais contente ainda... (...) Tem ciúmes de mim, detesta-me, despreza-me: aos olhos dela sou ua mulher perdida. Ah, seu eu fosse o que ela pensa, com que facilidade teria feito andar a cabeça à roda ao marido! Reconheço que tive essa ideia... Ora ali vai um homem encantado com a sua pessoa!", pensou, ao ver um cavalheiro gordo de tez florescente, cuja carruagem cruzou com a sua e que, tomando-a por outra pessoa, a cumprimentou descobrindo um crânio tão luzidio como o seu chapéu alto. "Julga conhecer-me. Ninguém me conhece, nem eu própria. Apenas conheço os meus appétits, como dizem os Franceses. Aqueles garotos estão a cobiçar gelados maus, disso têm eles a certeza", decidiu ao ver duas crianças paradas em frente de um vendedor que punha no chão um balde de gelados e limpava a cara com a ponta de um trapo. "Todos nós somos ávidos de goludices, e à falta de bombons contentamo-nos com maus gelados, como Kitty que, não podendo casar com Vronsky, se contentou com Levine. Ela inveja-me, detesta-me. Detestamo-nos uns aos outros. Eu odeio-a, ela odeia-me. Assim vai o mundo. Je me fais coiffer par Tiutkine. (Penteio-me no cabeleireiro) Hei-de fazê-lo rir com esta tolice", pensou, para logo se lembrar de que já não tinha ninguém a quem fazer rir. Estão a tocar as vésperas; como aquele vendedor faz os seus sinais de cruz com circunspecção!, terá ele medo de deixar cair qualquer coisa? Para que são estas igrejas, estes sinos, estas mentiras?, para dissimular que nos odiamos todos, como esses cocheiros de trem que se injuriam. Iachvine tem razão em dizer: "Ele quer a minha camisa, eu quero a dele."
Arrastada por estas relexões, esqueceu por um momento a sua dor e ficou surpreendida quando a caleche parou." (...)

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E aqui dou por encerrado os posts de Ana Karenina. Não desvendarei o seu final, pois este tem que ser lido de livro na mão e com o embalo de toda a história, e porque também não seria justo, mas aqui ficam fragmentos desta história que demora a sair da cabeça. Escreverei mais sobre ela...

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