sábado, 9 de fevereiro de 2008

Teatro sem teatro

Imagem de um espectáculo de Tadeusz Kantor
Sobre a exposição - Teatro sem Teatro

Um Teatro Sem Teatro explora as diferentes propostas artísticas com base num modelo teatral que surgiram desde o início do século XX, e que resultaram em extensões e alternativas às categorias e divisões estéticas das belas artes no interior do espaço alargado das artes visuais.Híbridos – essas formas de expressão múltiplas – constituíram e continuam a constituir territórios em que as questões típicas das belas artes se alimentam das características das artes performativas; temas em que os vivos confrontam a futilidade, o tempo enfrenta o espaço, a vida a arte, e o real a sua representação, a tal ponto que o espaço da arte contemporânea poderia ser considerada o “outro palco” do teatro. Este “outro palco”, e o lugar nele ocupado pelo sujeito, é precisamente aquilo que este projecto pretende mostrar – um sujeito que, por vezes, é actor, outras espectador, e cuja presença leva à redefinição do funcionamento e do propósito da obra. À luz da predominância actual das imagens no campo da arte, e num período de domínio absoluto do registo visual, o teatro poderia parecer antiquado, capaz de evocar nostalgia. Porém agora, revelou-se como uma ferramenta significativa e suficientemente válida para capturar a forma e a substância de uma ampla variedade de propostas contemporâneas, permitindo estabelecer uma filosofia de leitura que, paradoxalmente, muitos dos projectos apresentados tendem a ignorar em vez de adoptar.De Hugo Ball a Mike Kelley, de Oskar Schlemmer a Dan Graham, de Christian Boltanski a James Coleman, são os códigos e convenções, os caprichos utópicos das transformações estéticas, políticas e sociais transportados pela experiência cénica que agora tecem e sustêm as ligações entre o teatro e a arte contemporânea. Através desta interacção constante, as artes visuais alargam o seu campo de acção e conquistam novos espaços. Com trabalhos baseados no modelo teatral executados por artistas que vão de Konstantin Stanislavski a Vsevolod Meyerhold, de Antonin Artaud a Samuel Beckett, de Jerzy Grotowski a Tadeusz Kantor, a arte nunca cessou de questionar consistentemente a razão pela qual deveria ser excluída. Porque a realidade do mundo no qual vivemos tende a obliterar distinções entre o cénico e o real. O mundo contemporâneo é agora uma imensa performance onde o sujeito procura continuamente o seu lugar. O projecto moderno foca incessantemente a atenção no centro do palco. Talvez a própria modernidade seja a história ainda por escrever de todas estas, por vezes efémeras, utopias – acções, happenings, eventos, festivais, Fluxmesse, performances, encenações, teatro instrumental e de rua. Bem como um grande número de outras noções que transgridem leis, tais como o espaço do teatro e o das artes visuais. Enquanto o teatro encontra mais provavelmente condições para a sua possível emancipação no campo da arte nos modelos que o teatro lhes proporciona, as artes visuais apenas encontram condições de uma possível rejeição da sua mercadoria, um mergulhar em crises de representação ou da natureza material das coisas – a criação de novas estratégias, uma forma de “criar mundos” através de novos prismas e focalizações. Confrontados com a industrialização das imagens e dos corpos, alguns artistas utilizam as formas e as leis do teatro e do palco para contrabalançar uma rejeição de qualquer estética da reconciliação, considerando a teatralização da realidade como uma alternativa à espectacularização contemporânea e como uma possível reconstrução do sujeito, por vezes da falência da esfera política. Dado que a história da arte e as linhas que ela traça considera frequentemente os elementos fundamentais do tipo de produção aqui em questão como marginais, uma exposição deste tipo nunca se poderia conformar à linearidade da cronologia ou a uma classificação baseada meramente na lógica dos diferentes movimentos. Assim, é preferível apresentar uma divisão temática em várias sequências nas quais, desde as vanguardas históricas (futurismos, Dadaismo, construtivismo, etc.) até à crítica americana da teatralidade do minimalismo, de Michael Fried, da oposição “teatro/cinema/poder” que resulta da análise de Dan Graham à actividade dramática de Joseph Beuys e Bruce Nauman, da paródia do Fluxus à singularidade do comportamento de James Lee Byars e Marcel Broodthaers, da posição fundamental de figuras nascidas sob a influência do Living Theater ou de grupos como o Provos e a Internacional Situacionista, tornou-se mais urgente que nunca compreender os desafios dos dias de hoje.A apresentação desta exposição co-produzida pelo MACBA e o Museu Colecção Berardo permitiu explorar o trabalho de grandes nomes do contexto artístico português, tais como Santa Rita Pintor ou José de Almada Negreiros, entre outros. Uma selecção de obras da colecção Berardo vem igualmente completar esta mostra na qual se destacam propostas de Carl Andre, Helena Almeida, Larry Bell, François Dufrêne, Giulio Paolini, Lucas Samaras, Ernesto de Sousa e Jacques de la Villeglé.

p.s - Do site:http://www.berardocollection.com

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